As mortes de sete turistas britânicos em Cabo Verde, quatro das quais ocorridas entre agosto e outubro de 2025, reveladas numa investigação do "The Times" estão a criar apreensão. Esta quinta-feira, 5 de fevereiro, as autoridades de saúde britânicas emitiram um novo alerta para quem viaja para o arquipélago na sequência do aumento de casos de infeções gastrointestinais associadas a estadias nas ilhas. Dados oficiais do UK Health Security Agency mostram que, desde 1 de outubro de 2025, 158 casos confirmados de Shigella e 43 de Salmonella foram ligados a viagens a Cabo Verde, na sua maioria nas zonas de Santa Maria e Boa Vista, destinos populares junto de turistas europeus.
Perante este cenário, as recomendações emitidas pelas autoridades de saúde salientam a necessidade de medidas básicas de higiene para reduzir o risco de transmissão, incluindo lavagem frequente das mãos com água e sabão ou álcool gel e atenção à escolha de alimentos e água potável, consumindo apenas alimentos bem cozinhados e água engarrafada ou fervida. Estas orientações surgem num contexto em que surtos de infeções gastrointestinais têm sido reportados em vários países europeus entre viajantes regressados de Cabo Verde e reforçam as preocupações sobre a segurança sanitária no país, especialmente para viajantes mais vulneráveis.
7 vítimas mortais desde 2022 e mais de 1500 doentes
O caso das mortes de quatro turistas britânicos em Cabo Verde, todas no espaço de quatro meses, remonta a 2025. Mark Ashley, de 55 anos, Elena Walsh, de 64, Karen Pooley, também de 64, e um homem de 56 anos, cuja identidade não foi revelada, morreram durante férias no arquipélago.
De acordo com a investigação do "The Times", a primeira vítima, Elena Walsh morreu em agosto de paragem cardiorrespiratória na sequência de uma gastroenterite. Nos três meses seguintes, outros três cidadãos britânicos viriam a morrer após complicações médicas como gastroenterites, ossos fraturados e paragem cardiorrespiratória. Todos ficaram alojados numa unidade hoteleira da marca espanhola Riu, que detém seis resorts em Cabo Verde.
A BBC adianta que existem ainda mais três vítimas mortais desde 2023, todas representadas pela Irwin Mitchell. O escritório de advogados já avançou com uma ação legal contra a TUI, empresa turística que detém a marca hoteleira RIU, estando também a representar mais de 1500 pessoas que adoeceram em Cabo Verde. Todas as mortes, relata a BBC, têm em comum terem começado com sintomas de doenças gastrointestinais. Há também acusações de assistência deficitária nas unidades de saúde cabo-verdianas.
Jatinder Paul, advogado da Irwin Mitchell, afirma à BBC: "O número de turistas que viajam para Cabo Verde e acabam atingidos por doenças gástricas graves e debilitantes é verdadeiramente impressionante. Nunca vi surtos de doença repetidos e contínuos nos mesmos resorts, numa escala tão grande e durante um período de tempo tão prolongado."
A TRAVEL MAGG entrou em contacto com a Irwin Mitchell para obter mais esclarecimentos mas, até ao momento, não obteve qualquer resposta.
Cadeia hoteleira e governo cabo-verdiano garantem segurança dos turistas
Contactada pela TRAVEL MAGG com várias questões sobre o caso, a RIU Hotels & Resorts respondeu através de um comunicado no qual afirma que “a saúde e a segurança dos nossos hóspedes são sempre a nossa principal prioridade”. A cadeia hoteleira refere que está presente em Cabo Verde “há 20 anos”, onde gere “seis hotéis, num total de 4.650 quartos”, empregando “3.307 colaboradores”, com uma taxa média de ocupação anual “superior a 90%”. No mesmo comunicado, a RIU sublinha ainda que, só em 2025, terá recebido “mais de 400 mil hóspedes” no país.
A empresa garante também que opera “com os mais elevados padrões de profissionalismo e serviço”, colocando a segurança higiénico-sanitária como prioridade, e afirma que os seus hotéis em Cabo Verde seguem “os mais rigorosos padrões internacionais de saúde e higiene”, certificados por “consultoras externas de prestígio”. A cadeia reforça, por fim, que “o bem-estar dos clientes vem em primeiro lugar” e que o seu compromisso passa por assegurar “a máxima segurança e um serviço de elevada qualidade”.
Na sequência da repercussão internacional do caso, o governo de Cabo Verde, através do Ministério da Saúde, reagiu em comunicado enviado aos órgãos de comunicação social, no qual classifica a abordagem mediática como “grave, desproporcional e suscetível de induzir perceções alarmistas injustificadas” sobre o Serviço Nacional de Saúde e sobre o país.
O ministério sustenta que, do ponto de vista epidemiológico, dados das autoridades britânicas indicam que as infeções gastrointestinais, incluindo as associadas à Shigella [bactéria responsável por infeções gastrointestinais, que podem causar diarreia intensa, febre e dores abdominais, geralmente transmitida por água ou alimentos contaminados], “não figuram entre as causas relevantes de mortalidade”, tratando-se de eventos “raros e de baixa letalidade”, geralmente associados a indivíduos com vulnerabilidade clínica.
O governo cabo-verdiano afirma ainda que os relatórios de vigilância do Reino Unido “não identificam Cabo Verde como origem relevante de casos importados recentes” e sublinha que a coincidência temporal entre viagem e doença “não constitui prova de causalidade”, defendendo que a determinação desse nexo exige investigação laboratorial e epidemiológica aprofundada.
No comunicado, o Ministério da Saúde acrescenta que os processos em causa têm “natureza jurídica” e visam “entidades privadas”, rejeitando que alegações individuais em instâncias estrangeiras sejam generalizadas ou usadas para colocar em causa o sistema de saúde nacional e “a boa imagem do país”. As autoridades garantem que acompanham a situação desde finais de 2025, envolvendo entidades como a Rede Nacional de Laboratórios, a ERIS e a Inspeção-Geral das Atividades Económicas, e concluem que, à data, “não existem evidências epidemiológicas públicas que confirmem a existência de um surto ativo”.
O que dizem as autoridades portuguesas?
No site da Direção-Geral da Saúde não existe qualquer indicação específica relativamente a cuidados a ter aquando viagens para o arquipélago africano. No site da Organização Mundial da Saúde, também não há quaisquer alertas relativamente a estes casos. Apenas um comunicado relativo ao reforço de apoio sanitário na ilha de São Vicente na sequência das inundações de agosto de 2025.
Já no Portal das Comunidades Portuguesas, surgem as recomendações de saúde habituais para viajantes.
Consulta prévia antes da viagem: É aconselhável consultar os portais da Organização Mundial de Saúde e da Direção-Geral da Saúde sobre a situação médico-sanitária em Cabo Verde, bem como recorrer às consultas de aconselhamento ao viajante disponíveis em Portugal, que permitem recomendações adaptadas a cada caso.
Prevenção contra mosquitos: Nas ilhas de Santiago, Fogo e Maio, recomenda-se o uso frequente de repelentes de insetos e vestuário adequado para reduzir a exposição às picadas do mosquito Aedes, transmissor de doenças como a dengue.
Cuidados com alimentação e água: Deve beber-se apenas água engarrafada e evitar gelo. É aconselhável não consumir vegetais crus, como saladas, nem alimentos preparados com ovos crus ou mal cozinhados.
Kit básico de saúde: Para além da medicação habitual, é recomendável levar antidiarreicos, protetor solar e repelentes de insetos, preferencialmente com DEET, respeitando sempre as instruções de utilização.