"Isto não é uma 'horta'. Isto é uma horta!". É o primeiro pensamento que nos assoma assim que nos sentamos no Wine Bar, fazendo tempo enquanto o resto do grupo não chega. Há um aroma de alfazema no ar e, atarefados, funcionários da quinta apanham as flores desta planta. Serão depois colocadas a secar nos lagares, usadas em saquinhos aromáticos e também para produzir sabonetes artesanais, como nos explica João Paulo Magalhães, responsável pela hotelaria e restauração do Ventozelo Hotel & Quinta.

Dos citrinos às couves, das malaguetas às curgetes, passando por uma variedade impressionante de vegetais, frutos e até flores, a horta da Quinta de Ventozelo, uma das maiores e mais antigas do Douro, foi pensada, criada e é mantida com uma dedicação apaixonada e teimosa por João Bicho. O arquiteto paisagista, tal como João Paulo Magalhães, faz parte deste grupo de punks que, no Ventozelo, não fazem concessões tendo em vista um objetivo: manter esta quinta de 400 hectares, na paisagem, na comida, na dormida, no passeio, no acolhimento, fiel ao que é o Douro. E o que é o Douro? É muita coisa, mas todas as coisas que é podem encontrar-se aqui, no Ventozelo.

A colaborar com o Ventozelo Hotel & Quinta desde 2017, João Bicho teve como prioridade na horta que é agora o ex-libris deste hotel "respeitar o que já existia". E isso implica estar constantemente a adaptar o que se cultiva e em que altura do ano, respeitando sempre a fauna, nomeadamente as abelhas e demais insetos, que contribuem para o equilíbrio frágil de um ecossistema com características muito próprias. "Esta horta sofre muito porque não tem a luz que gostaríamos", explica o arquiteto paisagista, enquanto nos guia e nos vai dando a provar flores, frutos, folhas, verduras e tudo o que nos vai aparecendo à frente, enquanto descemos os socalcos da horta, que se podem contemplar enquanto se toma o pequeno-almoço, almoço ou jantar na Cantina de Ventozelo, o espaço de refeições da propriedade.

Conheça a horta do Ventozelo Hotel & Quinta

Aqui come-se o que a terra dá — e quando dá

Por vezes, o conceito farm to table, termo fancy para descrever "o que está no prato veio ali da terra", é usado de forma mais performativa do que real. Não é, de todo, o caso da Cantina de Ventozelo. Com José Guedes, chef executivo, ao comando da cozinha, todos os pratos da carta, desde o pequeno-almoço ao jantar, são adaptados ao que a horta ou os fornecedores locais vão tendo no dia a dia. Há curgetes? Faz-se curgete. Acabaram-se as cerejas? Vamos aos pêssegos. Carne e peixe, legumes, fruta e até o mel são de fornecedores locais, e a pescaria que se faz ali no Douro vem parar ao prato dos comensais.

Aos 47 anos, o chef executivo da Cantina de Ventozelo trocou uma carreira como professor de Educação Física pela cozinha. Estagiou em Paris, passou por espaços como o L'Kodac, o Espaço Porto Cruz até, agora, estar à frente da restauração do Ventozelo Hotel & Quinta.

A Cantina de Ventozelo ocupa hoje o mesmo espaço onde, em tempos, os trabalhadores da quinta faziam as suas refeições. A simplicidade do conceito original – com apenas dois pratos e uma sopa por dia – deu lugar a uma carta mais ampla e versátil. “Esta oferta era curta para grupos maiores. Criámos uma carta maior, com três pratos de carne, três de peixe e uma opção vegetariana”, explica o chef José Guedes. A sazonalidade dita o ritmo das mudanças, sempre alinhadas com os ingredientes frescos vindos da horta. “Não quer dizer que mudemos todos os meses, mas vamos ajustando porque a quinta tem o seu próprio ritmo”, salienta.

José Guedes, chef executivo do Ventozelo Hotel & Quinta
José Guedes, chef executivo do Ventozelo Hotel & Quinta José Guedes, chef executivo do Ventozelo Hotel & Quinta créditos: Luis Ferraz

Entre os maiores atrativos estão os menus temáticos, que celebram ingredientes da época com pratos inspirados: tomate coração de boi em agosto, azeite em setembro ou carne de caça no outono “são motes para mudar e comunicar”. “Este é o registo do almoço. Ao fim de semana, também ao almoço temos os pratos estrela: bacalhau, vitela e cabrito”, conta o chef. A qualidade e a origem regional dos produtos são valores inegociáveis. “Usamos sempre os melhores produtos da região. Tentamos não estragar e trazer as coisas boas da região. Os acompanhamentos são quase sempre o que temos na horta.”

Ao jantar, a experiência ganha um toque mais sofisticado, sem perder a autenticidade duriense. A sala transforma-se, as toalhas substituem os marcadores e a apresentação dos pratos revela maior cuidado. “O traço é o mesmo, produtos de qualidade, num registo mais cuidado, empratado, também com a possibilidade de as pessoas partilharem os pratos.” Já durante o dia, a carta do Wine Bar propõe petiscos e sandes com identidade local. “O traço é sempre português, bom produto, local, a aproveitar tudo o que temos na horta e vamos trabalhando consoante as estações.”

Cantina de Ventozelo (esplanada)
Cantina de Ventozelo (esplanada) Cantina de Ventozelo (esplanada) créditos: LUIS FERRAZ / QT VENTOZELO

Marco e Cristina Sousa são também parte integrante dos que contribuem não só para a autenticidade da oferta desta quinta centenária, mas também da região. Apicultores em part-time, fornecem o mel que se pode encontrar no pequeno-almoço e que é também usado nos pratos servidos na Cantina. É com eles que aprendemos que a colheita do néctar das abelhas é feita em junho e julho, sendo este ingrediente parte do calendário gastronómico do restaurante do hotel. Na prática, em cada mês celebra-se um ou mais ingredientes sazonais, todos ou vindos diretamente da quinta ou dos fornecedores habituais da propriedade.

Mel dos produtores Marco e Cristina Sousa
Mel dos produtores Marco e Cristina Sousa Mel dos produtores Marco e Cristina Sousa

Paulo Portela, fornecedor de fruta e legumes do Ventozelo, faz também parte do grupo de gente teimosa que mantém o sangue a correr nos socalcos durienses. Neto de agricultores e formado em engenharia, explica-nos que começou a trabalhar ainda adolescente na distribuição de frescos pela região. Ao invés de uma carreira enfiado num escritório, Paulo, de 32 anos, escolheu produzir e vender o que a terra dá, levando, consoante a época do ano, desde cerejas a batatas, ao Norte e Centro do País. E à Cantina de Ventozelo, claro.

A comida que não nos fez beber 3 litros de água antes de ir dormir

Podíamos dedicar um artigo a todas as coisas maravilhosas que comemos na Cantina de Ventozelo, a começar pelo pequeno-almoço, com ovos e pão caseiro, compotas e os pecaminosos croissants brioche da Dibia, em Vila Real. Mas temos de destacar as deliciosas panquecas de aveia com maçã caramelizada, uma verdadeira obra de arte a fazer lembrar uma tarte tatin. Também provámos as panquecas com requeijão e mel, que não desiludiram.

Tivemos a oportunidade de almoçar e jantar na Cantina de Ventozelo, na esplanada, sempre convidativa nos dias e noites da canícula duriense. Desde as empadas de caça à salada de beterraba, passando pelos pecaminosos croquetes, o que os pratos servidos no Ventozelo Hotel & Quinta têm em comum é a leveza. Mesmo quando estamos a falar de pratos mais pesados, o facto de serem usados ingredientes locais e não haver excesso de sal e gordura proporcionou-nos momentos prazerosos à mesa sem aquelas consequências desagradáveis que, por vezes, sentimos nestas refeições mais opíparas: a sensação de enfartamento e a necessidade urgente de beber água sem parar. E isso, para nós, só pode ser ótimo sinal.

Veja tudo o que comemos na Cantina de Ventozelo

O que acontece na Casa Grande, fica na Casa Grande

Somos suspeitos porque foi lá que pernoitámos, mas, para nós, a Casa Grande é a tipologia mais luxuosa e apetecível do Ventozelo Hotel & Quinta. Sim, sabemos que a Casa Romântica é a mais procurada de todas (é uma dor de cabeça conseguir fazer uma reserva), mas, para nós, a Casa Grande tem outro encanto.

Próxima do rio, com uma piscina enorme, na qual se pode mergulhar a qualquer hora do dia, é reservada na sua totalidade, permitindo privacidade e independência do resto da propriedade. Podemos ou não ter mergulhado às 3 da manhã, quando as temperaturas ainda andavam ali pelos 30 graus — mas não confirmamos nem desmentimos.

A piscina da Casa Grande
A piscina da Casa Grande A piscina da Casa Grande

Com seis quartos, decorados com aquela austeridade que nos fez lembrar os bed and breakfast britânicos (e, temos de confessar, aquele famoso b&b da comédia romântica "4 Casamentos e um Funeral", onde a personagem de Hugh Grant se apaixona pela de Andie MacDowell). Tudo é discreto, tudo grita luxo. O verdadeiro luxo, que é despojado, silencioso e austero.

O nosso quarto na Casa Grande
O nosso quarto na Casa Grande O nosso quarto na Casa Grande

A família ou grupo de amigos que ali ficar tem uma piscina privada, para desfrutar de mergulhos com vista para o Douro, uma cozinha totalmente equipada, sala de jantar, sala de estar com lareira (indispensável para os meses de outono e inverno) e um pátio interior.

A Casa Grande fica a 1,5 quilómetros da receção e do restaurante (sem transporte incluído) e conta com o apoio da governanta Eunice Madeira. Tem estadia mínima de duas noites em época média e alta. Os preços por noite vão desde 2150€ (época baixa), 2550€ (época média), até aos 2950€ (época alta).

Conheça a Casa Grande

A grande novidade do Verão traz aroma a Amarante

Quem visitar o Ventozelo Hotel & Quinta neste verão vai encontrar, nas casas de banho, um novo aroma bem português. A grande novidade é a chegada da marca Oliófora às amenities do hotel. Criada em 2013, em Amarante, por Daria Maximova, a marca de cosmética natural – com forte presença na hotelaria e em espaços de spa – começou por utilizar matéria-prima da própria horta do Ventozelo para desenvolver sabonetes e sais de banho. Desde agosto, também o gel de banho, champô e condicionador passaram a fazer parte da experiência no hotel.

Produtos da marca Oliófora
Produtos da marca Oliófora Produtos da marca Oliófora

A aposta estende-se ainda a produtos sazonais, que estarão à venda na Mercearia do Ventozelo Hotel & Quinta. Para assinar esta linha exclusiva, foi escolhida a nova marca do universo Oliófora: a Esfera Dynamic Cosmetics, que surge aqui com o nome Jardim dos Aromas by Esfera. “Ventozelo é um luxo diferente. É um luxo de presença. Por isso, a marca tem de ser diferente. É o luxo do simples”, explicou Daria Maximova.

6 anos a manter viva a essência da hospitalidade duriense

A dimensão de Ventozelo pode ser assoberbante, mas existem duas formas práticas — e saudáveis, para o corpo e para a mente — de ficar mesmo por dentro da história e da paisagem desta quinta. Uma delas é, durante a estadia, descarregar a aplicação, onde pode encontrar sete percursos pedonais com audioguias. Depois, é fazer uma visita ao Centro Interpretativo do Ventozelo, para entender a história desta propriedade, que tem vestígios de presença romana que remontam a um período estimado entre o século I e o século V.

A Quinta de Ventozelo foi adquirida pelo grupo Granvinhos há 11 anos, tornando-se um exemplo de regeneração no Douro. Com mais de 200 hectares de vinha, foram investidos 15 milhões de euros numa abordagem que conjuga tradição agrícola com inovação enoturística e ambiental. O lançamento do Ventozelo Hotel & Quinta, em 2019, consolidou o projeto como destino de referência para quem procura experiências vínicas e de natureza, atraindo já mais de 25 mil hóspedes e milhares de visitantes ao seu centro interpretativo. A identidade da quinta é moldada por uma geologia rica e uma diversidade de castas que resultam numa vasta gama de vinhos com carácter distintivo.

Com apenas 29 quartos, distribuídos por sete edifícios espalhados pela propriedade, o Ventozelo Hotel & Quinta é, mais do que um sítio para ficar, um lugar onde se vive, de forma única e sem concessões nem artifícios, o Alto Douro Vinhateiro. É para ir, pelo menos uma vez na vida.

Conheça o Ventozelo Hotel & Quinta

Ventozelo Hotel & Quinta
Ervedosa do Douro, 5130-108 São João da Pesqueira

Contactos: +351 254 732 075 · reservas@quintadeventozelo.pt
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* a TRAVEL MAGG visitou o Ventozelo Hotel & Quinta a convite da propriedade

Fotos: Luís Ferraz e TRAVEL MAGG