Poc a poc” é a expressão usada pelos menorquinos para descrever o modo de viver nesta ilha das Baleares. “Pouco a pouco” ou, em português corrente, “devagar, devagarinho”. A expressão encaixa na perfeição para definir o estado de espírito que se sente em Menorca — para o bem e para o mal.

A insularidade traz sempre os seus desafios, como nos confidencipu Laurent Morel-Ruymen, o empresário francês proprietário do Cap Menorca e do Faustino Gran, ambos membros da prestigiada associação francesa Relais & Châteaux. Durante esta visita de 72 horas (mais coisa, menos coisa, por culpa dos atrasos da TAP), a TRAVEL MAGG ficou hospedada nos dois hotéis — experiências complementares que mostram duas Menorcas diferentes: a do campo e do silêncio absoluto, no Cap Menorca, e a do centro histórico de Ciutadella, no Faustino Gran, onde o bulício das ruas estreitas se mistura com o som das gaivotas e o cheiro do mar.

Mas uma ilha tem também as suas virtudes: um ritmo de vida mais descontraído, muito sol (exceto no inverno, convém sublinhar, quando a ilha enfrenta chuva e ventos inclementes), calas (pequenas enseadas ou baías entre rochedos, acessíveis por terra ou por mar), praias de sonho, uma História rica e paisagens que mudam consoante o ponto cardeal.

Com 702 quilómetros quadrados e cerca de 94 mil habitantes, Menorca é, entre as irmãs Baleares — Ibiza e Maiorca —, a mais discreta e também a mais exclusiva. Isso não significa, contudo, que nos meses de verão (de junho a setembro) não haja fila de espera para tirar a icónica fotografia nas praias de Macarelleta e Macarella, que fazem de Menorca um dos destinos mais instagramáveis da Europa. Sim, fila de barcos. Tivemos uma pequena amostra disso a bordo do iate Héloïse.

Ainda assim, o ritmo sereno e o foco nas atividades ao ar livre — das caminhadas aos passeios a cavalo, passando pelos desportos náuticos — fazem desta ilha um destino perfeito para quem procura sol e mar, mas sem a movida barulhenta de Ibiza, os influencers de Formentera ou as multidões de Maiorca.

Cap Menorca, um sonho com o Mediterrâneo aos nossos pés

Más notícias: o Cap Menorca fechou e só reabre a 30 de abril de 2026. A sazonalidade deste paraíso mediterrânico, membro da associação Relais & Châteaux, prende-se essencialmente com a sua localização. Situado numa finca (propriedade rural) que outrora abrigou um forte, o hotel não se torna particularmente atrativo nos invernos agrestes da ilha. A partir do final de abril, a estadia ali torna-se um verdadeiro hino ao luxo menorquino.

Quando chegámos ao Cap Menorca já era noite cerrada. Ainda assim, a entrada na nossa suíte deixou-nos sem ar... pelos melhores motivos. O barefoot luxury (luxo descalço, em português) está presente em todo o lado, desde a decoração minimalista, onde abundam as madeiras, os tecidos crus, a iluminação suave, e os icónicos azulejos verdes, presentes em todas as casas de banho do hotel. Cada suíte tem o seu pátio privado e, no pátio, a surpresa que quase nos fez chorar de emoção. Uma piscina privada de água salgada. Os muros altos, que separam as suítes, permitem privacidade total e a possibilidade de desfrutar da piscina ao estilo Cleópatra (fãs de Elizabeth Taylor entenderão). Um pormenor que confirma que estamos mesmo num sítio de um luxo diferente: não há televisão em lado nenhum.

onde as oliveiras e as plantas autóctones perfumam o ar e criam um ambiente quase hipnotizante quando seguimos o caminho da suíte até ao restaurante, onde Nico Ball, chef executivo do Cap Menorca, prepara iguarias que cruzam tradições locais com uma panóplia de sabores cosmopolitas.

Nos 30 hectares do Cap Menorca, um refúgio quase perfeito idealizado pelo empresário francês Laurent Morel-Ruymen, repousam ainda os canhões do tempo em que a propriedade era uma base militar. Servem quase de guardiães do hotel, e avistam-se da impressionante piscina com vista para o Mediterrâneo (e, lá ao fundo, com o céu limpo, a visão de Maiorca). São apenas 15 suítes, divididas em três tipologias, todas com piscina privada, jardim e a mesma decoração minimalista.

O Cap Menorca tem estadia mínima de três noites. De 1 a 4 de maio, os preços começam nos 1.866,33€ (Mediterranean Suite), valor não reembolsável e pago a 100% no momento da reserva. Se preferir tarifa flexível, com pagamento da totalidade 14 dias antes da chegada, o valor sobe para 2.073,40€. Se optar pela Historic Suite, os valores sobem para os 2.777,06€ (não reembolsável) e 3.085,63€ (tarifa flexível).

Conheça o Cap Menorca

Cap Menorca Relais & Châteaux
Camino de Llucalari s/n, 07730 Alaior, Menorca

Contactos: +34 871 047 217;  booking@capmenorca.com
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Salinas de La Concépcion

Sorte a nossa que visitámos as históricas Salinas de La Concépcion mesmo antes da reta final da produção artesanal de sal. A recolha do precioso mineral é feita segundo o método tradicional — ou seja, a evaporação depende apenas do calor do sol —, o que significa que, nos meses mais frios e húmidos, a produção pára. Fundadas em 1853, as Salinas de La Concépcion foram as únicas da ilha que resistiram à industrialização (chegou a haver seis). Funcionaram até meados dos anos 1980 e depois ficaram ao abandono.

Salinas de La Concépcion
Salinas de La Concépcion Salinas de La Concépcion créditos: TRAVEL MAGG

Graças à família Best, a propriedade ganhou nova vida em 2018 e iniciou um longo processo de reabilitação das infraestruturas para retomar a produção artesanal de sal. Reabertas desde 2023, as salinas produzem dois tipos de sal extraídos da água do mar: flor de sal e sal marinho. Na baía de Fornells, a água entra nas balsas, que vão diminuindo de profundidade para acelerar o processo de evaporação.

As salinas são também um contributo valioso para a conservação do ecossistema local, onde se podem encontrar 500 espécies de plantas e 48 de aves — para as quais, na recuperação do espaço, foram construídas pequenas ilhas artificiais destinadas à nidificação.

Se o sal é a sua cena, se gosta de história e quer ver Menorca de uma perspetiva diferente, visitar as Salinas de La Concépcion é uma excelente forma de o fazer. É necessária marcação prévia no site para participar numa visita guiada. Já no local, tenha atenção aos pequenos fossos e não faça como nós, que nos esbardalhámos à grande. Sem mazelas de maior — só um joelho esfolado. Ainda não sabemos como se diz “quem te avisa, teu amigo é” em menorquino, mas fica o aviso.

Conheça as Salinas de La Concépcion

Salinas de la Concepción
Ctra. Maó – Fornells – Me7 Km. 20 07740 Es Mercadal – Menorca

Contactos: comunicacion@saldemenorca.com
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Faustino Gran, romantismo histórico no coração da Ciutadella

No extremo oeste de Menorca, Ciutadella, a cidade mais populosa da ilha (e a que encerra mais história e património cultural), alberga o irmão mais velho do Cap Menorca. O Faustino Gran, hotel de cinco estrelas também pertencente à Relais & Châteaux é composto não por um, mas três palácios. E o lado divertido de ficar instalado aqui é poder circular entre os edifícios, porque isso implica mergulhar no centro histórico de Ciutadella, cruzar-se com os ciutadellencs, respirar o ritmo da cidade. Não é de espantar que, nas ruas entre o Can Faustino, o Cal Bisbe e o Can Sebastià vejamos hóspedes de roupão, circulando entre o spa, uma das piscinas e os quartos.

Parece complicado mas torna-se um jogo divertido e uma estadia única. No Can Faustino, do século XVI, o edifício principal, ficam 21 quartos, 3 suítes, o restaurante ao ar livre num jardim incrível, terraço, piscina e spa. A poucos metros, no Cal Bisbe, onde antes ficava a diocese de Menorca (que continua a existir no edifício contíguo), encontramos 20 quartos e 4 suítes em torno de um pátio com piscina e vista para a catedral de Santa Maria de Ciutadella.

Ficámos instalados neste edifício, num quarto que segue as linhas estéticas do Cap Menorca: simplicidade, minimalismo, conforto e silêncio visual.  No Can Sebastià Palace, uma casa senhorial do século XIX, com uma monumental escadaria, e biblioteca privada onde decorrem eventos culturais, encontramos 8 suítes com vistas sobre Ciutadella e o pormenor mais apaixonante e intrigante (para nós, claro) do Faustino Gran: um hammam, criado na fundações do edifício, com uma atmosfera onírica e misteriosa.  A artista francesa Delphine Nény pintou os frescos nos tectos do Cal Bisbe, pássaros e natureza que flutuam, evanescentes, enquanto descemos a escadaria para jantar.

Em breve, o Faustino Gran irá aumentar, uma vez que um quarto palácio está já em obras. O hotel encerra no final de outubro e reabre no final de março. A estadia mínima é de 3 noites e os preços começam nos 499,77€ (não reembolsável) para uma reserva de 26 a 29 de março, em quarto duplo. Os preços podem ir até aos 4.321,08€ se optar por reservar 3 noites na mais luxuosa tipologia do Gran Faustino, a villa com piscina privada, com capacidade até oito pessoas.

Conheça o Faustino Gran

Faustino Gran
Sa Muradeta 22, 07760 Ciutadella, Menorca

Contactos: +34 971 489 191; booking@faustinogran.com
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Um passeio de sonho no Heloïse

"A água é mesmo igual ao Instagram!". Foi exatamente o que dissemos, ou melhor, gritámos, assim que o Heloïse, um dos iates disponíveis para os hóspedes do Cap Menorca e Faustino Gran, fez a primeira paragem após partirmos do porto de Ciutadella. Cala Parejals, uma pequena enseada com uma gruta que parecia saída de "A Pequena Sereia" foi o nosso primeiro contacto com as águas cálidas de Menorca e com a cor absurdamente azul do mar.

Cala Parejals
Cala Parejals Cala Parejals

Seguiram-se paragens nos dois spots mais instagramáveis da ilha, Macarelleta e Macarella que, com os rochedos e a floresta verde, criam cenários perfeitos para ter conteúdo para dois anos. Sim, nós sabemos que nem tudo é para o Instagram mas até nós ficámos a perceber as verdadeiras filas de barcos que, sobretudo no verão, ali se concentram para que todos possam ver e captar para a posteridade aquele azul, aquele verde, a areia impossivelmente branca e fina.

Reservar o iate Heloïse começa nos 900€ para meio dia (4 horas) e 1.500 € para o dia completo (7 horas). As reservas devem ser feitas através do concierge do Faustino Gran (concierge@faustinogran.com; +34 971 48 91 91) e implicam pagamento integral no ato da reserva, com possibilidade de cancelamento até 30 dias antes da partida. O valor inclui o capitão, toalhas, água natural e com gás, e combustível até Cala Macarella (sul) ou Cala Pilar (norte), sendo cobrado um suplemento de 150€ se o percurso ultrapassar esses pontos. A comida e as bebidas (exceto água) não estão incluídas, mas o piquenique pode ser organizado antecipadamente com a equipa de concierge, garantindo uma experiência personalizada a bordo.

Laurent e a arte de reinventar Menorca sem lhe roubar a alma

"O toque francês", uma combinação de de simplicidade e refinamento, um luxo além do óbvio. Foram estas características que o homem por detrás do Cap Menorca e do Faustino Gran quis trazer a Menorca. O tal "luxo com os pés descalços" resume a filosofia de Laurent Morel-Ruymen, o empresário francês que trouxe uma nova dimensão à hospitalidade em Menorca. Proprietário do Faustino Gran e do Cap Menorca, ambos membros da prestigiada associação Relais & Châteaux, Laurent defende uma visão de luxo discreto, sem ostentação. “Não vai encontrar ouro, nem aqueles detalhes que dão uma impressão de opulência desnecessária. O luxo, para mim, está na simplicidade, no conforto, na autenticidade do lugar.”

O empresário apaixonou-se por Menorca em 2012, ao chegar de barco. “Para quem navega, esta ilha é maravilhosa. O vento sopra do sul ou do norte, e a ilha estende-se de leste a leste. Há sempre vento suficiente para velejar — e isso é o que mais me apaixona.” Mas o mar foi apenas o início. “Depois descobri os cavalos menorquinos, uma raça que me fascinou. E percebi que havia aqui um território com alma, onde podia criar algo novo. Um lugar que precisava de ser reinventado.”

Laurent Morel-Ruymen
Laurent Morel-Ruymen Laurent Morel-Ruymen

Foi essa intuição que deu origem ao Faustino Gran, um conjunto de cinco palácios (três a funcionar e dois ainda em obras) restaurados no coração de Ciutadella, e ao Cap Menorca, uma propriedade de luxo integrada na paisagem costeira. “Em ambos os casos, quisemos conservar a essência e a alma do lugar. O nosso papel é apenas revelar a beleza que já lá está. No Cap Menorca, a natureza é a protagonista. Vive-se dentro e fora, sente-se o vento e o silêncio. No Faustino Gran, é a história que fala — os muros, os pátios, os escudos esculpidos na pedra.”. O empresário detém ainda a Casa de Pau,  um retiro de 15 hectares a 15 minutos do Faustino Gran, onde os hóspedes podem passar o dia entre mergulhos na piscina e descanso.

A relação com Menorca é, para Laurent, um caso de amor prolongado. “Esta ilha tem algo de mágico. É simples, verdadeira, e talvez por isso o luxo aqui tenha de ser também assim — sem artifícios, com pés descalços.” E o futuro já se desenha: em 2026, está prevista a abertura do Lolo's, restaurante com ambiente de discoteca. Em 2027, Laurent planeia abrir a Biniatram, uma quinta rural dedicada ao turismo equestre, com 200 hectares, 15 quartos e cavalos menorquinos. “Será um lugar para viver a natureza, o silêncio e o movimento ao mesmo tempo. Um luxo que não se mostra — sente-se.”

* a TRAVEL MAGG viajou a convite da Relais & Châteaux