Homero não a mencionou, e talvez seja essa a sorte de Astipaleia. Esta ilha fica no extremo ocidental do Dodecaneso, no sudeste do mar Egeu, mas parece pertencer a outro arquipélago: tem forma de borboleta e um aspeto muito mais próximo das Cíclades, e a sua posição contribuiu para que ficasse de fora da vaga de desenvolvimento turístico acelerado que transformou outras ilhas nos anos 80 e 90. O resultado é uma ilha com quatro povoações, estradas curtas e um ritmo que continua a ser o dos residentes.

O que ver

Chora, Astipaleia
Chora, Astipaleia Chora, Astipaleia créditos: Unsplash

Toda a vida da ilha se passa em Chora, a capital, construída em anfiteatro na encosta de uma colina, com vista sobre o Egeu. No ponto mais alto ergue-se o castelo Querini, o principal monumento de Astipaleia. Foi levantado sobre os restos da antiga acrópole da ilha e do castelo bizantino, e a sua construção iniciou-se em 1207, por Giovanni Querini. Dentro das muralhas, e ao contrário do que é habitual noutras fortificações do Egeu, chegaram a viver famílias inteiras, e ainda hoje se distinguem as ruínas das casas encostadas à pedra escura.

O caminho para o castelo faz-se pela rua dos moinhos, oito construções alinhadas que se tornaram a imagem mais reconhecível da ilha. Vale a pena reservar o percurso para o fim da tarde, quando a luz baixa e os moinhos ficam iluminados. Nas imediações fica também a igreja de Panagia Portaitissa, do século XVIII, com um interior trabalhado que contrasta com a sobriedade exterior. Para quem quiser contexto, Chora tem um Museu Arqueológico e um Museu Eclesiástico, ambos pequenos e ambos suficientes para uma manhã. Abaixo da capital fica Pera Gialos, o porto antigo, hoje com marina, tabernas e uma praia de areia.

As praias

Agios Konstantinos
Agios Konstantinos Agios Konstantinos

Astipaleia é rochosa e pouco arborizada, o que significa que a maior parte das praias não tem sombra natural. As mais acessíveis são também as mais organizadas: Livadi, a dois quilómetros a sul de Chora, com espreguiçadeiras, restaurantes e alojamento junto à água, e a própria Pera Gialos. Agios Konstantinos, também com apoio de praia, é frequentemente apontada como a melhor relação entre qualidade da água e facilidade de acesso.

As restantes exigem esforço. Kaminakia, no sudoeste, é apontada como uma das melhores da ilha, mas o acesso implica cerca de 20 minutos de estrada de terra batida a partir da via principal. Vatses é igualmente remota e alcança-se por caminho de terra ou de barco. Tzanaki, nas proximidades, é frequentada por naturistas.

Do lado nordeste, a povoação de Analipsi — também chamada Maltezana — reúne várias enseadas pequenas, como Mple Limanaki e Plakes. É também daqui e de Pera Gialos que partem os passeios de barco para os ilhéus que rodeiam Astipaleia, sobretudo Koutsomiti e Kounoupa, onde a água é rasa e transparente. Se tiver apenas um dia livre, é provavelmente aqui que o deve gastar.

A ilha que trocou os motores por eletricidade

Astipaleia
Astipaleia Astipaleia

Há um detalhe que distingue Astipaleia de qualquer outra ilha grega da mesma dimensão. Desde 2021 que decorre o projeto "Smart & Sustainable Island", uma parceria entre o Estado grego e o grupo Volkswagen para converter a ilha à mobilidade elétrica e a energia renovável. O antigo autocarro público, que funcionava apenas em determinados meses e ligava poucos pontos, foi substituído pelo ASTYBUS, um serviço de transporte partilhado que opera todo o ano e cobre muito mais locais da ilha. Existe ainda o astyGO, de aluguer de veículos elétricos.

Para quem visita, a informação prática é esta: é possível circular sem alugar carro, sobretudo entre Chora, o porto, o aeroporto e as praias organizadas. Para chegar a Kaminakia ou a Vatses, continuará a precisar de veículo próprio.

O que comer

O prato mais associado à ilha é o lambriano, cabrito ou borrego recheado com arroz e miudezas e assado lentamente. Vale a pena também procurar a arntista, um preparado de lentilhas com massa, e os poungia, pequenos pastéis recheados com o queijo local chlori e levados ao forno.

Nos doces, os biscoitos lambrokouloura são uma das várias especialidades perfumadas com o açafrão da ilha, e os xirotigana são anéis de massa fritos e regados com mel produzido a partir de flores silvestres. O mel de tomilho de Astipaleia é um produto local com reputação própria e resolve bem a questão das prendas.

Onde ficar

Livadi
Livadi Livadi

Não há resorts nem grandes hotéis e as opções são alojamentos familiares e casas de férias. Chora é a opção mais central, com vista para o castelo e tudo à distância de uma caminhada, mas implica subidas e ruas estreitas. Pera Gialos coloca-o junto ao porto e ao mar, com acesso imediato às tavernas. Livadi, dois quilómetros a sul, é a alternativa de praia com serviços. Analipsi, do outro lado da ilha e junto ao aeroporto, é a mais sossegada e a mais indicada para quem viaja de carro.

Quanto à altura do ano, o fim de maio, o início de junho e setembro são os períodos com menos gente. Em contrapartida, alguns restaurantes de praia podem estar encerrados nessas semanas.

Como chegar

A forma mais rápida de chegar a Astipaleia é voar até Atenas e, dali, apanhar um ferry no porto de Pireu até à ilha. De acordo com simulação no site da Blue Star Ferries, uma viagem de ida e volta custa a partir de 114€. Cada viagem dura entre 9 a 10 horas.