A Argélia foi eleita pela BBC um dos melhores destinos de viagem para 2026. O país simplificou o acesso a vistos para cidadãos europeus, está a investir em infraestruturas turísticas e oferece algo cada vez mais raro: autenticidade, monumentos sem filas e hospitalidade que ainda não foi formatada pelo turismo de massas.
De ruínas romanas à beira-mar a cidades do século XI no limiar do Sahara, de pontes suspensas sobre gargantas vertiginosas a medinas UNESCO com zero turistas à vista, a Argélia tem tudo para ser uma viagem inesquecível.
O Roteiro: 14 Dias, 8 Destinos
Dias 1 - 3 — Argel
A capital merece três dias. No primeiro, começa pela Casbah, o labirinto de ruelas otomanas classificado pela UNESCO desde 1992, onde a vida quotidiana acontece entre paredes do século XVI, e pelo Bastião 23 (Palais des Raïs), o último quarteirão sobrevivente da Casbah baixa mesmo à beira do mar.
No segundo dia, sobe ao Jardin d'Essai do Hamma, um dos maiores jardins botânicos do mundo, visita o Museu Nacional de Belas Artes ao lado (mais de 8.000 obras), apanha o teleférico para o Memorial dos Mártires e termina com a subida à Basílica de Nossa Senhora de África, cuja inscrição sobre o altar ("reza por nós e pelos muçulmanos") é um resumo inesperado de tudo o que Argel é.
No terceiro dia, reserva a manhã para a Grande Mesquita Djamaâ el-Djazaïr, inaugurada em 2019, a terceira maior do mundo, com um minarete de 265 metros, o mais alto do planeta. A tarde é para explorar os boulevards coloniais da cidade baixa e da orla marítima. Ficam para o fim mas não deixam de ser uma das maiores surpresas da capital argelina, uma pequena amostra do que foi a capital colonial francesa - uma visão do que seria Paris abandonada.
Dica local: experimenta o créponné, o sorbet de limão de rua que o TasteAtlas classificou como o melhor gelado de África.
Dias 4 - 5 - 6 — Oran e Tlemcen
A segunda maior cidade da Argélia tem a energia de uma cidade mediterrânea: esplanadas, boulevard do início do século XX, arte e arquitectura. No primeiro dia, percorre o centro histórico: o Museu Nacional Zabana, o Forte de Santa Cruz com a melhor vista da cidade, a Mesquita Hassan Pasha e a única praça de touros de África. No segundo dia, vai à costa: a estrada por Cap Falcon, Aïn Turck e Les Andalouses tem praias desertas de areia branca e água azul-cobalto a 20 minutos do centro.
Dica: Oran foi o cenário de "A Peste" de Camus. Lê as primeiras páginas antes de ir.
A uma hora e meia de estrada a este de Oran, Tlemcen foi capital cultural do Islão ocidental entre os séculos XII e XV. É uma das cidades mais surpreendentes do roteiro.
O primeiro dia começa pela natureza: as Cascatas de El Ourit e as Grutas de Beni Add em Ain Fezza. À tarde, o centro histórico: a Grande Mesquita de 1082, as madraças do século XIV e o Túmulo de Sidi Boumedienne, um conjunto que rivaliza com Fez, mas sem filas nem turistas.
O segundo dia é para as ruínas de Mansourah, onde um minarete do século XIV se ergue sozinho num campo aberto, quase idêntico ao da Koutoubia de Marraquexe, completamente desconhecido fora da Argélia. De tarde, visita o Palácio El Mechouar, um palácio dos reis Ziânidas do século XIII, e fecha no Plateau Lella Setti com a vista panorâmica sobre a cidade ao entardecer.
Dia 7 - 8 — Ghardaïa e o Vale do M'Zab
Uma das maiores surpresas da Argélia fica a 600 km a sul de Argel, já no limiar do Sahara. Ghardaïa é a principal cidade de uma pentápole de cinco cidades-fortaleza construídas pelos Ibaditas entre 1012 e 1350 no Vale do M'Zab — UNESCO desde 1982. A arquitectura é única: casas cúbicas em branco e ocre que descem em cascata até à mesquita no ponto mais alto, com o minarete a servir de torre de vigia. Tão original que Le Corbusier a estudou como modelo de urbanismo sustentável.
Visita Ghardaïa, Beni Isguen e El Atteuf. O souk de Ghardaïa é um dos mais autênticos do país — tâmaras, tapetes, joalharia berbere.
O Vale do M’zab é também um local único graças a quem o habita. A população local é maioritariamente mulçulmana mas mistura culturalmente influências árabes e berbéres. As mulheres casadas de Gardhaia tem a peculiaridade de vestir-se todas de branco e usar o véu de maneira a deixar apenas um olho de fora. É uma imersão num estilo e num ritmo de vida completamente diferente.
Chega-se de avião (Air Algérie, 1h de Argel) ou de carro (5-6 horas). Vale a pena passar pelo menos duas noites por lá.
Dias 9 - 10 - 11 — Constantine (e Annaba)
Constantine é uma das cidades mais espectaculares da Argélia — literalmente suspensa no ar, construída num planalto rochoso rodeado pelas gargantas do rio Rhummel a mais de 200 metros de profundidade. Oito pontes ligam as diferentes partes da cidade sobre o abismo.
No primeiro dia, percorre as pontes a pé: o Ponte Sidi M'Cid (175 metros de altura, o mais alto do mundo à inauguração em 1912), o Viaduto Sidi Rached (27 arcos, 447 metros, o maior em alvenaria do mundo na época) e o moderno Viaduto Salah Bey (2014, 1.119 metros). No segundo dia, a médina, o Museu Nacional Cirta e a Mesquita Emir Abdelkader — e, se houver tempo, a excursão ao sítio arqueológico romano de Tiddis nos arredores.
Annaba é a cidade menos esperada e uma das mais marcantes. Reserva parte do dia para as ruínas de Hipona (Hippo Regius), a duzentos metros do Mediterrâneo, onde Santo Agostinho foi bispo durante 35 anos e escreveu "A Cidade de Deus" e "As Confissões". Fórum Romano, Termas, mosaicos in situ, tudo praticamente sem visitantes. Sobe depois à Basílica de Santo Agostinho para a vista sobre a baía.
A visita pode terminar nos bairros coloniais da cidade baixa, na orla marítima e com um jantar de peixe fresco junto à costa.
Dia 12 — Djémila
No regresso de Constantine para Argel, uma paragem obrigatória: Djémila (cujo nome em árabe significa "a bela") é um dos sítios arqueológicos mais impressionantes do mundo mediterrâneo — e quase ninguém fora da Argélia sabe que existe. As ruínas romanas da antiga Cuicul estendem-se a 900 metros de altitude, numa paisagem montanhosa verde que não tem nada a ver com o que se imagina ao pensar em ruínas romanas norte-africanas. Teatro, fórum, arco de Caracala, termas, basílica cristã — tudo em extraordinário estado de conservação, quase sempre sem outros visitantes. UNESCO desde 1982.
O museu no local tem uma colecção de mosaicos que vale a visita.
Dia 13 - 14 — Tipaza e regresso por Argel
A última paragem fica a uma hora de Argel: Tipaza, onde as ruínas romanas caem literalmente para o Mediterrâneo. Anfiteatro, vilas, templos, com o mar como pano de fundo permanente e quase sempre sem mais ninguém. Camus escreveu que Tipaza é habitada pelos deuses na primavera. Conseguirás perceber porquê.
No regresso a Argel, para no Mausoléu Real da Mauritânia, provavelmente o túmulo de Cleópatra Selene II, filha de Marco António e Cleópatra, numa arriba com vista para o Mediterrâneo. Voo de regresso ao fim do dia.
Informações Práticas
- Como chegar: Voos diretos de Lisboa para Argel com Air Algérie e TAP (code-share). Duração: aproximadamente 2h30. Para as cidades interiores, a Air Algérie tem uma rede doméstica eficiente e barata.
- Visto: Necessário para cidadãos portugueses. O processo foi simplificado recentemente — consulta a Embaixada da Argélia em Lisboa.
- Moeda: Dinar argelino (DZD). Não é convertível fora do país, é melhor trocar à chegada.
- Língua: Árabe e berbere. Francês amplamente falado. Inglês menos comum. Umas palavras em francês ajudam muito.
- Melhor época: Abril-maio ou setembro-outubro. O verão pode ser muito quente, especialmente no interior e em Ghardaïa.
- Segurança: O norte do país, que cobre a maior parte deste roteiro, é seguro para viajantes. Consulta sempre as recomendações do Ministério dos Negócios Estrangeiros antes de partir.