Que não haja margem para dúvidas. O Volvo XC90 é um carro impressionante. Poderoso, estável e absolutamente previsível na condução (no melhor sentido da palavra) combina a segurança quase obsessiva da Volvo com a versatilidade de um híbrido plug-in. Debaixo do capô estão 455 cavalos e 709 Nm de binário, distribuídos pelas quatro rodas, o que se traduz numa aceleração dos 0 aos 100 km/h em 5,4 segundos. Não é suposto um SUV familiar com sete lugares mexer-se assim, mas mexe. E mexe que se farta.
Sendo um híbrido plug-in, seria legítimo esperar um compromisso doloroso entre performance e eficiência. Não é bem o caso. Em ciclo combinado, a marca aponta para 3,8 l/100 km, um número que, na prática, depende mais da disciplina do condutor do que da engenharia sueca. Ainda assim, mesmo em autoestrada, os consumos não entram em modo pânico.
A parte elétrica levantou-nos mais questões. A autonomia em modo 100% elétrico fica pelos 69 km (até 87 km em cidade). Na teoria, chega para o quotidiano urbano. Na prática, desaparece depressa, sobretudo num carro deste tamanho e peso (mais de 2,3 toneladas). Trocando por miúdos: sim, pode (e deve) carregar a bateria. Mas, se não tiver uma rotina disciplinada de carregamentos, o XC90 transforma-se rapidamente num híbrido… mais teórico do que real. Ao fim de alguns dias, foi exatamente isso que nos aconteceu.
A grande dificuldade que encontrámos no Volvo XC90 é o tamanho. Mais concretamente, a altura. Com 1,77 metros de altura, entrar e sair exige mais do que um gesto automático. Para quem, como nós, tem cerca de 1,70m e mobilidade normal, faz-se. Para quem não tem, complica-se.
Testámos com duas pessoas: uma com 75 anos, 1,65 m e alguma limitação de mobilidade; outra com 1,55m e mobilidade reduzida. Em ambos os casos, entrar e sair do carro não foi intuitivo nem confortável e, em algumas situações (subidas, descidas, estacionamento irregular), exigiu ajuda.
E aqui entra um ponto que a indústria automóvel continua a ignorar com uma elegância desconcertante: acessibilidade não é um extra. É o quotidiano. Porque o bem-estar num carro não começa quando se fecha a porta. Começa antes. No gesto de entrar, na facilidade de usar, Na autonomia real das pessoas, não da bateria.
Numa Europa cada vez mais envelhecida — e sendo a Volvo uma marca europeia — talvez seja tempo de a indústria automóvel começar a pensar menos em mobilidade elétrica e mais em mobilidade humana. Os corpos imperfeitos (leia-se, envelhecidos) ainda são tratados como exceção. Mas não vão ser. Daqui a duas décadas, serão a maioria. E a pergunta mantém-se: queremos carros perfeitos… ou pessoas que consigam usá-los?
As dificuldades que, para sermos justos, não são exclusivas aos Volvo mas gerais nestes tempos em que, no segmento de carros familiares, os SUV são regresa, continuaram. A montagem e rebatimento dos bancos da terceira fila não é particularmente amigável. Exige força e alguma destreza. O mesmo acontece com a cobertura da bagageira, que tem de ser removida para aceder aos lugares traseiros. Não é intuitivo nem leve. E há ainda um detalhe menos simpático: os carris metálicos e pontos de fixação ficam expostos durante o processo, o que levanta questões de segurança, especialmente com crianças por perto.
No resto, o XC90 volta a ser aquilo que promete: um salão escandinavo sobre rodas. O teto panorâmico abre o habitáculo à paisagem, com uma luz natural que transforma qualquer viagem numa experiência mais cinematográfica. Os bancos (em couro nappa ventilado) são um manifesto de conforto. Há aquecimento, ventilação e até função de massagem nos dianteiros. A segunda fila é generosa; a terceira, surpreendentemente utilizável em viagens mais longas (desde que consiga entrar no carro). E depois há o som. O sistema Bowers & Wilkins não é um extra, é um argumento. Potente, limpo, envolvente. Não interessa onde se senta: a qualidade segue-o.
Mas, para um modelo cujo preço começa nos 108.921 € e que facilmente ultrapassa os 116 mil euros com extras, há detalhes que pedem mais atenção. Não apenas de funcionalidade, mas de visão.