Há quem atravesse meio continente para ver castelos medievais, adegas escavadas na rocha e aldeias de pedra suspensas sobre desfiladeiros. E há quem descubra que tem tudo isso à distância de um depósito de combustível, ou menos. Ao longo dos mais de 1200 quilómetros de fronteira entre Portugal e Espanha, do Minho ao Guadiana, há vilas que os portugueses conhecem de passagem e poucas vezes como destino. É uma injustiça que um fim de semana prolongado resolve.
Depois das 10 cidades espanholas perto de Portugal que já lhe sugerimos, desta vez a escala é mais pequena e o ritmo mais lento. A lista vai de norte a sul e inclui pontes que se atravessam a pé, lagos glaciares, dólmens, templários e um slide que o leva de volta a Portugal em menos de um minuto. Só não se esqueça de acertar o relógio: do lado de lá, é sempre uma hora mais tarde.
A Guarda
Do outro lado do Minho, em frente a Caminha, A Guarda é uma vila de pescadores virada para o Atlântico. O porto continua no centro da vida local, e a lagosta é tão importante que tem direito a festa própria, a Fiesta de la Langosta.
O ponto alto da visita é literal: o Monte de Santa Trega, com 314 metros de altitude. Lá em cima ficam as ruínas de um castro, com vestígios de ruas, habitações e cisternas, e um museu arqueológico. A vista abrange a foz do Minho, o oceano e as montanhas em redor.
Tui
Para chegar a Tui a partir de Valença, basta atravessar a ponte internacional sobre o Minho, desenhada pelo engenheiro Pelayo Mancebo e presença na paisagem há mais de um século. Do lado de lá espera-o um centro histórico com cerca de dez hectares, onde se conservam vários edifícios medievais, muitos do século XV, com os característicos arcos conopiais.
No topo da colina está a catedral de Santa María, consagrada em 1225. É românica, com uma fachada que já anuncia o primeiro gótico da Galiza, e tem mais ar de fortaleza do que de igreja, com torres ameadas, adarves e passadiços. Faz sentido, porque durante séculos esta foi uma fronteira que se vigiava de perto.
Baiona
Foi aqui que, a 1 de março de 1493, Martín Alonso Pinzón chegou com a caravela Pinta, no regresso da viagem de Colombo às Américas. Baiona foi assim dos primeiros lugares da Europa a receber a notícia. Uma réplica da Pinta continua no porto a lembrá-lo.
O castelo de Monterreal, que domina a baía, funciona hoje como pousada, integrada na rede de Paradores. No monte Sansón ergue-se a Virxe da Rocha, uma estátua com 15 metros de altura virada para o mar. Entre uma coisa e outra, há praias nas Rías Baixas que pedem pelo menos uma tarde.
Puebla de Sanabria
Esta vila de pedra e telhados de lousa foi declarada conjunto histórico-artístico em 1994. No alto está o castelo dos Condes de Benavente, construído na segunda metade do século XV sobre uma fortaleza anterior. A poucos passos fica a igreja de Santa María del Azogue, românica do século XII, com acrescentos dos séculos seguintes.
Guarde tempo para o Lago de Sanabria, a poucos quilómetros, que é o maior lago de origem glaciar de Espanha. Está integrado num parque natural e tem uma lenda à medida: a de Valverde de Lucerna, uma aldeia que terá sido engolida pelas águas como castigo por recusar esmola a um pobre. Os sinos da igreja, diz-se, ainda estão lá no fundo.
Fermoselle
Fica a cerca de dez minutos da fronteira, junto aos desfiladeiros do Douro internacional, e é conhecida como a vila das mil adegas. Não é força de expressão: há cerca de um milhar escavadas no granito por baixo das casas, algumas com origem no século X e ligadas entre si por galerias subterrâneas. O vinho da zona integra hoje a Denominação de Origem Arribes.
À superfície, no ponto mais alto do penhasco, restam vestígios do castelo de Doña Urraca, destruído depois da revolta dos comuneros. A igreja da Asunción mistura o românico e o gótico. À volta estendem-se as Arribes del Duero, com o rio encaixado entre paredes de rocha e Portugal na outra margem.
Valencia de Alcántara

A cerca de 30 quilómetros de Marvão, esta vila da Extremadura tem com Portugal uma ligação que vai além da geografia. Foi aqui que, em 1497, D. Manuel I casou com a infanta Isabel de Aragão. A Boda Regia recria anualmente o casamento, com mercado medieval e concertos.
O bairro gótico-judaico tem centenas de portais em arco ogival e casas com brasões. A sinagoga, dos séculos XIV e XV, é parecida com a de Tomar. Nos campos à volta há 41 dólmens, classificados como zona arqueológica e parte de um dos conjuntos megalíticos mais importantes da Europa. Se preferir o céu à pedra, o Berrocal de La Data é um bom sítio para observar estrelas.
Alburquerque

Muito perto da fronteira, Alburquerque vê-se ao longe graças ao Castillo de Luna, uma das fortalezas medievais mais destacadas da Raia. Deve o nome a Álvaro de Luna, condestável de Castela e mestre da Ordem de Santiago, um dos principais responsáveis pela sua construção. Lá de cima avistam-se terras portuguesas.
A subida faz-se pela Villa Adentro, o bairro medieval dentro das muralhas, classificado como conjunto histórico-artístico. Pelo caminho fica a igreja de Santa María del Mercado, construída entre os séculos XIII e XV, com acrescentos barrocos do século XVIII.
Jerez de los Caballeros
Depois da conquista cristã de 1230, Jerez ficou entregue aos cavaleiros templários, a quem deve o nome. Deixaram-lhe o castelo, erguido sobre uma antiga alcáçova muçulmana. Deixaram também a Torre Sangrienta, que, segundo a tradição local, recebeu o nome depois de os templários que ali resistiram terem sido todos degolados.
A vila é também a terra natal de Vasco Núñez de Balboa, o explorador que em 1513 liderou a primeira expedição europeia a chegar ao oceano Pacífico. Hoje, o que se avista primeiro são as torres das igrejas. A de San Miguel é barroca, de 1749, e a de San Bartolomé, de 1759, é decorada com tijolo, estuque e cerâmica colorida.
Aracena
A atração principal está debaixo dos pés. A Gruta de las Maravillas abriu ao público em 1914 e foi a primeira gruta de Espanha a fazê-lo. O percurso passa por lagos subterrâneos, estalactites e estalagmites, e o nome não é exagero de marketing.
Por cima da gruta, o castelo, construído sobre uma antiga alcáçova muçulmana, e a igreja prioral de Nuestra Señora del Mayor Dolor vigiam a vila. À volta estende-se o Parque Natural Sierra de Aracena y Picos de Aroche, uma paisagem de azinheiras, sobreiros e castanheiros que se presta a caminhadas.
Sanlúcar de Guadiana
Em frente a Alcoutim, do outro lado do Guadiana, esta pequena vila é vigiada pelo castelo de San Marcos, uma fortificação de fronteira no alto de um cerro a leste da povoação.
A forma mais divertida de regressar a Portugal é pelo ar. O Limitezero é o primeiro slide transfronteiriço do mundo, com 720 metros e velocidades entre 70 e 80 km/h entre Espanha e Portugal. A travessia dura menos de um minuto e, graças à diferença horária, chega a Portugal uma hora antes de ter partido de Espanha.













