Ah, piscinas. Refúgios citadinos, rurais ou à beira-mar, lagos artificiais de frescura quando as temperaturas sobem. Também espaços de convívio forçado quando o acesso não é restrito, verdadeiros laboratórios de observação do comportamento humano. Muitas vezes, do pior do comportamento humano.

Quando ouço pessoas a queixarem-se do barulho das crianças nas piscinas, dá-me vontade de rir porque os comportamentos mais aberrantes que já observei foram sempre de adultos. Crianças são crianças e se fazem barulho é bom sinal. É sinal de que estão vivas. Quem não gosta, pode sempre optar por frequentar um hotel só para adultos ou levantar-se às seis da manhã para dar umas braçadas pela fresquinha.

Agora que o verão chegou em força, urge uma reflexão coletiva para os frequentadores de piscinas de hotel. Para contribuir para a melhoria do período de veraneio de todos, reuni 10 regras básicas para o convívio salutar à beira da piscina.

1 - Guardem os mergulhos para a praia

O sinal de 'não mergulhar' pode lá está mas é certinho direitinho que vai haver pelo menos um engraçadinho a atirar-se à bruta, ou para se exibir ou para impressionar os amigos / cônjuge. Indiferente, claro, aos salpicos. A não ser que estejam numa piscina olímpica ou com profundidade suficiente para aguentar as vossas 'bombas' (ou no tanque da sua casa de campo no Alentejo, Salvador), guardem os mergulhos para a praia, para o rio, para a albufeira, para a barragem, para o lago. E cuidado com as rochas.

2 - As sessões fotográficas intermináveis

Piscinas infinitas e Instagram são a combinação dos infernos. Já assisti, com estes os olhos que a terra há-de comer, a um casal de aspirantes a influencers, às seis da manhã, a fazer uma elaborada sessão fotográfica na piscina. Ela, com o look completo, maquilhagem e tudo, ele com tripé, máquina profissional e drone. Quem eram? Não sei. Embora aprecie o empenho, é capaz de ser um bocado demais passar 45 minutos com o braço estendido no ar, na parte mais funda da piscina, a repetir pela enésima vez aquela pose a olhar para o horizonte, ou então fazer 4957363 fotos e vídeos a beijarem-se apaixonadamente dentro de água, em vez de estarem efetivamente a curtir a piscina. Sempre com o risco de o aparelho apanhar uma congestão. Às vezes, rio-me e agradeço o espectáculo à borla. Outras vezes, acho só cringe.

3 - Quem é que pediu um DJ? Ninguém

Se na praia é mau ter de aturar aquelas pessoas que acham que têm de fazer uma jam session com o telemóvel e que precisam mesmo de partilhar a playlist do Spotify com o areal inteiro, na piscina é mil vezes pior. Seja Debussy, seja funk, acreditem que quem está na espreguiçadeira ao lado não precisa de ouvir a banda sonora da vossa vida. Comprem uns auscultadores.

4 - Videochamadas (e chamadas em alta voz)

Outro dia estava eu a relaxar na piscina do Meliá São João da Madeira, que já de si é pequena, e o casal ao meu lado lembrou-se que aquele era o local ideal para fazer uma série de videochamadas. Não foi uma, foram várias. Era o gato, o cão, o periquito, a sogra, a criancinha que ficou ao cuidado da sogra, toda a conversa que parecia ter ficado pendente nos últimos 14 meses foi ali posta em dia. Se eu queria saber o que é que o menino comeu ao lanche? Não queria. Mas fiquei a saber. Se não for urgente, é mesmo preciso atender o telefone num espaço que é suposto ser de relaxamento? E é mesmo preciso ser em alta-voz? Pensem nisso.

5 - A marcação das espreguiçadeiras

Marcaram as férias no resort há quase um ano. Andam um ano a pensar nessa semana de descanso. A foto do vosso screen saver é a piscina do hotel. Quando lá chegam, a primeira coisa que fazem é acordar exatamente à mesma hora que acordam a um dia da semana para ir trabalhar. E para quê? Para colocar as vossas toalhinhas em duas espreguiçadeirazinhas à beira da piscininha, não vá a piscininha desaparecer ou o mundo acabar. Eu acho - mas é só uma teoria - que as piscinas dos hotéis têm capacidade suficiente para o número máximo de hóspedes que recebem. Ou pelo menos deveriam. Seja como for, será que vale mesmo a pena participar nos Jogos sem Fronteiras das Espreguiçadeiras? Reflitam sobre o tema.

6 - Terapia familiar ou show à borla?

Discussões de casal, discussões com os filhos, com os sogros. Acontecem mais em férias do que no dia a dia porque as pessoas são obrigadas, qual "Casa dos Segredos", a conviver 24h sobre 24h. Mas será que a ida à piscina é mesmo momento certo para dizerem ao António que lhes apanharam as mensagens com a serigaita do escritório? Será que esse é o momento certo para dizerem à vossa nora que ela está mais gorda, espoletando o equivalente à terceira guerra mundial? Será que é mesmo a altura certa para dizerem ao vosso filho adolescente que tem de largar o telemóvel que vocês lhe compraram e ir "fazer amizades"?

7 - Beber? Sim. Ficarem podres de bêbados? Se calhar, não

Ok, não estamos a falar daqueles resorts de pulseirinha do inferno para onde vão parar as despedidas de solteira das bifas e dos irlandeses. Estamos a falar de uma piscina normal, onde cidadãos incautos, de repente, às quatro da tarde, têm de levar com a vossa bebedeira, acompanhada de cantorias entaremeladas. Ou, pior, os funcionários do hotel, que têm de aturar as vossas birras alcoólicas. Peçam uma cerveja, um cocktail, o que for, mas controlem-se.

8 - calma, Michael Phelps da Temu

Mais uma vez. Uma coisa é estar no mar ou numa piscina olímpica, onde podem praticar à vontade a vossa mariposa ou melhorar o vosso tempo de bruços. Outra coisa é estar numa piscina com 15 metros de comprimento, 1,30m de profundidade máxima e desatarem a bater os pés e a rodar os braços como se estivessem a fugir de um tubarão. E ainda estarem à espera que aquele pai com uma criancinha ao colo e outra a tentar manter-se à tona com braçadeiras se desvie porque vos deu para encarnarem a Pequena Sereia.

9 - Recolham as toalhas molhadas

Sim, há pessoas pagas para fazer esse trabalho. Não, não vos custa nada. É uma cortesia, demonstra civismo básico e demonstra também que aquelas espreguiçadeiras estão vagas. Já que estão nisso, recolham também o lixo.

10 - Spa caseiro, não

Eu achava que já tínhamos evoluído o suficiente como sociedade para sabermos que catar borbulhas e pontos negros das costas do vosso parceiro / filho em público é nojento. Mas não. Aparentemente, é preciso vir aqui a relembrar que, além de pouco higiénico, é uma visão dos infernos. O mesmo se aplica a sacarem de uma pinça da mala e desatarem a tirar aqueles pelos perdidos do buço, do queixo ou das sobrancelhas. Preciso de referir que corta-unhas e limas também não ou ficamos por aqui?