Em agosto de 2025, vaticinámos o que, na altura, nos pareceu óbvio. "Se o Largo do Paço não ganhar a estrela Michelin, é a maior roubalheira de sempre" foi o título do nosso artigo, escrito depois de uma visita ao restaurante de fine dining da Casa da Calçada, em Amarante.
Tinham passado quatro meses sobre a reabertura do hotel, membro da Relais & Châteaux, e as expectativas em torno das criações de Francisco Quintas eram enormes, bem como a esperança de que o chef, na altura com 26 anos, e a restante equipa conseguissem reconquistar a estrela Michelin para o Largo do Paço. E foi sem grandes surpresas que, em março de 2026, confirmámos o nosso palpite. A distinção foi conquistada pelo restaurante do hotel amarantino e Francisco Quintas arrecadou também o título de Jovem Chef.
Quando o convite para o jantar Luz das Estrelas surgiu, não hesitámos em voltar a rumar a Amarante e perceber se, um ano depois, o Largo do Paço se mantém à altura das expectativas. E o que encontrámos foi tudo menos inesperado: confirmámos que a excelência da experiência apresentada pela equipa liderada por Francisco Quintas se mantém e confirmámos também que João Dória, head sommelier da Casa da Calçada, continua a entregar os pairings mais surpreendentes, apesar de, nesta iniciativa em particular, os vinhos serem fornecidos por uma única marca — neste caso, a Herdade da Malhadinha Nova.
A nossa refeição começou ainda no interior, com os primeiros momentos conjugados com um espumante bruto natural rosé 2015: ostra com pepino e maçã, uma tartelete de atum com ovas de truta e anchovas, repleta de umami, e o momento mais marcante da refeição — o que parecia ser uma singela almofadinha de beringela com molho tártaro revelou-se uma bomba de sabor. Se existe a dentada perfeita, é esta.
Já no exterior, e com o Tâmega ao pôr do sol como cenário, os anfitriões e os convidados da noite fizeram uma breve apresentação do jantar Luz das Estrelas. João e Rita Soares, proprietários da Herdade da Malhadinha Nova, descreveram a iniciativa como um "conto de fadas", elogiando o cenário. Francisco Quintas enfatizou que esta é uma iniciativa "mais informal", onde são apresentados alguns elementos fixos do menu de degustação e outras propostas.
O Vinhosinho da Malhadinha (2020) serviu de acompanhamento ao lírio com ovas ikura, pera e yuzu kosho, um momento fresco, crocante e perfumado. O Marias da Malhadinha (2020) emparelhou com santola com enguia, cebola e lima caviar, cujo único senão era poder ter sido servida um bocadinho mais fresca. Seguiu-se o momento do pão, composto por três manteigas (fumada, de enchidos e com cebola e xerez), pão de trigo barbela e um pecaminoso folhado com flor de sal. Passando para os tintos, com o Malhadinha (2022), chegou o tamboril com gamba, papada de porco e pão alentejano, uma combinação elegante e untuosa de sabores.
O tinto António combinou com a estrela da noite: vaca (wagyu criado em Amarante) com milho, maitake e acelgas. Um momento de gloriosa e sedutora perfeição para os amantes de carne, cuja degustação nos fez sentir como se estivéssemos a comer ouro em forma de proteína. Foi também o momento que nos reconfirmou que a estrela está bem entregue e que Francisco Quintas nos vai continuar a surpreender com propostas como esta.
Terminámos com uma explosão exótica de sabores em forma de late harvest, o Malhadinha 2018, que casou com gengibre, citrinos e citronela e, por fim, os petit fours.
Veja o que comemos (e bebemos)
Esta iniciativa, que irá repetir-se a 27 de agosto, é uma versão mais descontraída — e menos demorada — dos jantares habituais no Largo do Paço. Em vez dos 15 momentos, são apenas 10 e, aproveitando o bom tempo e a vista que a esplanada da Casa da Calçada tem sobre o Tâmega, parte da refeição é servida ao ar livre. Sob as estrelas, como o nome indica, ou sob a lua, uma vez que, a 27 de agosto, o satélite estará em quarto crescente.
O jantar Luz das Estrelas acontece a 27 de agosto, às 19h30, e tem o valor de 150€ por pessoa. O pairing vínico dessa edição será com o Champagne Taittinger.