Sintra mais Sintra não há. A Quinta Velha, uma propriedade do século XVIII transformada em alojamento local, é o mais próximo que se consegue estar dos pontos turísticos mais procurados da vila mais romântica do País, o Castelo dos Mouros e o Palácio da Pena. E é tão perto, tão perto que, durante o dia, para lá chegar, é preciso pedir aos agentes que estão a controlar o trânsito para passar além das barreiras que delimitam a passagem de carros particulares.
Há estacionamento de sobra para todos os hóspedes, e para quem opta por chegar de táxi ou TVDE, é só entrar, largar as malas e descansar. Dali para cima, pela estrada que serpenteia a serra, não há mais nenhum alojamento. Ou seja, dormir aqui é mesmo dormir no coração de Sintra. Nas duas noites na Quinta Velha tivemos a sorte de apanhar a fase de lua cheia, e de a contemplar da nossa varanda, com o Castelo dos Mouros lá ao fundo. A imagem vale mais do que as palavras.

A estadia começa por WhatsApp, quando recebemos uma mensagem de boas vindas de Armie António, a governanta da Quinta Velha, bem como um guia prático sobre horários, como chegar, o estacionamento e também os menus do jantar, de snacks e bebidas. Como a propriedade é pequena, a cozinha só funciona para pequenos-almoços e para refeições previamente encomendadas. Durante o dia, funciona um honesty bar: tudo o que está exposto e no frigorífico pode ser consumido, e cabe ao cliente apontar num papelinho o que retirou, para fazer contas no final.
O edifício principal é onde tudo acontece. Sala de estar com lareira e biblioteca, os quartos nos andares de cima, a sala do pequeno-almoço e a cozinha. Quando o tempo está de feição, a primeira refeição do dia faz-se no pátio, em silêncio quebrado apenas pelos passarinhos e pelos ‘bons dias’ da Leca, a mascote da propriedade. Ovos e bacon são confecionados no momento, e a restante oferta está disposta em formato buffet.
Os caminhos verdejantes conduzem-nos até um conjunto de rochas barrigudas, que escondem o ex-líbris da propriedade: a piscina panorâmica, com uma vista imbatível, da serra até ao mar. O tempo em Sintra, já se sabe, é imprevisível, mas bastam uns raios de sol para um mergulho e, para os mais corajosos, uma imersão na banheira de gelo.

Se a preguiça não apertar, faça como nós fizemos: percorra o caminho secreto da propriedade até ao centro histórico da vila. Vale a pena, não só porque evita a estrada principal, mas também porque é uma imersão no espírito mágico e misterioso de Sintra (e fica mais perto da Periquita). O romantismo da localização estende-se à decoração dos quartos, com as camas de armação de ferro e pormenores clássicos e acolhedores.

A Quinta Velha faz parte das 18.21 Houses, um projeto que começou com uma família portuguesa e duas casas carregadas de memórias: a Casa dos Condes, na povoação alentejana do Cano, em Sousel, e a Casa de São Domingos, no bairro lisboeta da Lapa. De geração em geração, os Mendia de Castro foram guardiões de histórias, encontros e tradições, e o amor pela preservação do património, aliado à paixão por bem receber, acabou por abrir as portas ao mundo. Ao longo dos anos, juntaram-se-lhes a própria Quinta Velha, a Casa da Burra e a Casa da Mula, em Sintra, e a Casa de São Paulo, em Lisboa, formando um conjunto de seis casas do século XVIII com o conforto do século XXI.
O que adorámos
Na segunda noite, jantámos em casa. Porque é em casa que Armie nos faz sentir quando nos serve uma refeição caseira e deliciosa. Começámos com uma sopa de beringela, cremosa e quentinha. Depois, o que estávamos à espera para provar desde que chegámos: adobo de porco, uma especialidade das Filipinas, país natal de Armie. O prato, que também pode ser feito com frango, tem as suas origens na forma ibérica de cozinhar carne de vinha-d’alhos.

O molho de soja, o açúcar e a pimenta conferem-lhe uma cor mais profunda e sabor mais apurado. Para a sobremesa, provámos o soufflé frio de limão. O jantar, composto por entrada, prato principal e sobremesa, tem o custo de 35€ por pessoa, sem bebidas.
O que podia ser melhor
Seja num alojamento local, seja num hotel de cinco estrelas, corremos sempre o risco de nos cruzarmos com pessoas desagradáveis. Faz parte da vida. Se essas pessoas são hóspedes, desde que não ponham em causa a nossa estadia, está tudo bem. É mudar de mesa ou de espreguiçadeira e pronto. Outra coisa bem diferente é estar num sítio onde um funcionário do alojamento inicia alegremente um diálogo racista e xenófobo com outro hóspede. Ninguém nos contou, assistimos nós. Foram uns bons minutos pejados daquelas máximas gastas sobre excesso de imigrantes, países europeus “dominados por muçulmanos”, teorias de remigração e por aí fora. O mais deprimente deste momento foi o total desrespeito pelos restantes funcionários da Quinta Velha, a começar por Armie, a governanta de origem filipina, que é, além de um amor de pessoa, quem mantém aquilo tudo a funcionar. Escusadíssimo.
Veja as fotos da Quinta Velha
Em outubro, os preços por noite começam nos 153€ (quarto na casa principal, para duas pessoas). Na Casa da Burra, que tem capacidade para três pessoas, os valores começam nos 237€ e na Casa da Mula (capacidade para três adultos e duas crianças), os valores começam nos 550€ (estadia mínima de duas noites). Todos os preços são com pequeno-almoço incluído.























































