A atriz de 32 anos viajou pela primeira vez para Cabo Verde para conhecer em pessoa o trabalho desenvolvido pela Turn On Success, da qua qual é embaixadora. Fundada há seis anos, a Turn On Success é uma ONGD portuguesa com ações e projetos em Portugal, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Quénia e Guiné Bissau.
A TRAVEL MAGG conversou com Ana Marta Ferreira sobre esta visita, que a levou às ilhas de São Vicente e Santo Antão, o papel da Turn On Success em Cabo Verde e também o que vivenciou no terreno enquanto embaixadora.
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Como é que surgiu o convite para ser embaixadora da Turn On Success?
Conheci a Turn há uns quatro ou cinco anos. O primeiro contacto foi para entregar roupa para enviarem para Cabo Verde — quando faço limpezas de armário em casa, doo tudo. Achei imensa graça à iniciativa e continuei em contacto com a Liliana [Cunha, fundadora da organização]. Passados uns 15 dias, ela mandou-me fotografias das meninas em Cabo Verde com as minhas roupas vestidas e achei um máximo. Percebi que era fidedigno, que faziam mesmo o que diziam.
Depois, saiu uma notícia sobre pobreza menstrual em Portugal e fiquei completamente focada no assunto, porque não tinha noção de que isso pudesse ser uma realidade no nosso País. Vivemos nas nossas bolhas e estas notícias provocam um enorme embate. Voltei a falar com a Liliana, começámos a trocar ideias sobre o que poderíamos fazer, e passado algum tempo surgiu o convite para ser embaixadora.
Esta viagem a Cabo Verde foi a primeira vez que foi lá enquanto embaixadora?
Foi a minha primeira vez lá, e enquanto embaixadora. Dois em um.
"O que me impressionou muito foi perceber que o objetivo delas não é fazer caridade. Frisaram isso muito bem: o que querem é criar oportunidades, empoderar as mulheres, ensiná-las a trabalhar, a ser empreendedoras, a crescer."
A Turn On Success trabalha só em Cabo Verde?
Não, têm delegações noutros países, e mesmo cá em Portugal, quem quiser entrar em contacto consegue sempre encontrar uma forma de ajudar. O foco principal é mesmo Cabo Verde, até porque têm uma parceria muito próxima com a Dona Fátima, que está à frente da Organização das Mulheres de Cabo Verde de lá. Essa ligação direta é o que lhes permite chegar mais perto. Mas o objetivo é estar em mais países — e inclusive cá em Portugal.
Como foi o primeiro contacto com o trabalho no terreno?
Logo no primeiro dia fomos diretamente para a associação, onde conhecemos a Dona Fátima. Ela mostrou-nos o trabalho que vai sendo feito ao longo do ano — workshops de costura, cursos de massagens, formação em informática, embora os computadores que têm sejam bastante antigos e precisem urgentemente de ser renovados.
O que me impressionou muito foi perceber que o objetivo delas não é fazer caridade. Frisaram isso muito bem: o que querem é criar oportunidades, empoderar as mulheres, ensiná-las a trabalhar, a ser empreendedoras, a crescer. Claro que a componente da caridade existe e é difícil não existir, mas o foco principal é o empoderamento. Acho isso inacreditável, porque a maioria das associações funciona muito pela lógica da caridade. Aqui é diferente.
Chegou a conhecer algumas das mulheres que estão a ser acompanhadas pela associação?
Sim. Num almoço que tivemos lá na associação apareceu uma rapariga que tinha sido formanda delas e que continuava a aparecer por lá. E vimos outras nas aulas, a aprenderem, a costurar — porque lá também produzem os pensos menstruais reutilizáveis. No último ano, se não estou em erro, distribuíram 17 mil pensos, muitos feitos pelas próprias meninas. É de tirar o chapéu. Devo dizer que as pessoas em São Vicente são bastante reservadas, é mais difícil chegar e ter uma conversa profunda. Mas via-se claramente que as raparigas estavam empenhadas e a aproveitar as oportunidades que lhes são dadas.
Qual foi o momento que a marcou mais?
A creche Arco-Íris, em São Vicente. Fica mesmo no meio de prédios inacabados que nunca vão ser acabados — vê-se ali a pobreza de forma muito crua, no olhar das crianças. Não é um olhar feliz. Fomos lá fazer uma celebração do Dia da Criança, entregar brinquedos, e houve um miúdo a quem abri um brinquedo. Ele olhou para mim e veio dar-me um abraço. Foi aí que percebi mesmo que estas crianças não têm nada. Também me perturbou muito saber que muitas vezes só fazem uma refeição por dia.
Na escola não têm capacidade para dar mais, e em casa a situação não é melhor. Andei a fazer perguntas, a tentar perceber como garantir pelo menos duas refeições diárias, e fui alertada para algo muito verdadeiro: queremos ajudar, mas não vamos conseguir ajudar todos. É muito difícil de aceitar, mas é a realidade. Por outro lado, algo que me surpreendeu positivamente foi o número de escolas que há em São Vicente. Dentro de toda aquela pobreza, há muitas escolas. E isso é algo que não esperava encontrar.
"Há coisas muito concretas e urgentes: computadores — os que têm são de 2004, torres antigas — e máquinas de costura, que são essenciais para fazerem as saias, os sacos e os pensos reutilizáveis."
E em Santo Antão? Foi uma visita diferente?
Em Santo Antão foi um pouco mais turístico — andámos de carrinha a conhecer a ilha —, mas fomos também às escolas, visitámos os sítios onde a associação trabalha diretamente e entregámos mais doações. A Turn tem lá uma pessoa que trabalha diretamente com a Dona Fátima, e o trabalho é o mesmo: workshops, cursos, empoderamento das mulheres. O que é incrível é que a Dona Fátima consegue estar atenta a todas as delegações em simultâneo, que são muitas. É um contacto constante e muito dedicado.
Cabo Verde está neste momento na boca do mundo por causa do futebol. Acha que isso pode trazer mais atenção para esta realidade que descreve?
Antes de conhecer a Turn, Cabo Verde era para mim sinónimo de turismo. Sabia que era um país mais pobre, mas não tinha noção das dificuldades reais. Foi através da associação que percebi o que está por baixo da superfície turística. Para nós, portugueses, Cabo Verde é um nome que associamos diretamente ao turismo — e de repente, através de uma associação, percebemos as reais dificuldades que as pessoas de lá passam. Portanto, se este momento de atenção mediática servir para isso, para mostrar que há uma realidade paralela que não está à vista num primeiro contacto, só pode ser positivo.
Para quem queira apoiar a Turn On Success, o que pode fazer?
A Turn é sempre o melhor veículo, especialmente cá de Portugal. A Liliana está muito informada sobre o que é necessário em cada momento e responde com muita rapidez. Dinheiro é sempre bem-vindo, porque permite distribuir por muito mais necessidades. Mas há coisas muito concretas e urgentes: computadores — os que têm são de 2004, torres antigas — e máquinas de costura, que são essenciais para fazerem as saias, os sacos e os pensos reutilizáveis.
O que leva desta experiência?
Poder ver em primeira mão que o trabalho é mesmo feito, que dá frutos — isso é que é inacreditável. Há associações e há associações. Esta é das que fazem a diferença. É um orgulho fazer parte da Turn On Success.
Como ajudar a Turn on Success?
"A associação está a promover campanhas solidárias para as escolas de São Vicente e Santo Antão. As maiores necessidades são livros de leitura para crianças e jovens, material escolar, brinquedos em bom estado e equipamentos musicais para que possam ser utilizados em várias atividades educativas e de desenvolvimento pessoal. Continuamos a angariar fundos para os nossos projetos de combate à pobreza menstrual e apoio social", explica Liliana Cunha, fundadora da Turn On Sucess.